Páginas

Amor de prateleira.

24 junho 2016
Por cada caquinho de amor que a gente esbarra ou ter na vida, é preciso lutar por uma amanhã melhor, sendo uma pessoa melhor, de alma mais leve e coração mais aberto 
Nada no mundo é capaz de apagar um amor. Disso eu bem sei, não é preciso viver uma história a la Titanic para entender que essa parada do coração é jogo de gente grande, eu diria que de alma grande e coração aberto. Oh negociozinho que complica nossa existência. Uma complicação linda, mas que nos desnorteia e é capaz de nos deixar sem fôlego. Coisa boa? Talvez sim...

Ouvi por ai, mundo a fora, que tinha uma menina que se gabava por não se interessar por nenhum garoto; mas que na verdade colecionava amores, platônicos, imaginários e até mesmo correspondidos. Inclusive os correspondidos eram dispostos em sua prateleira; ali ela ilustrava o que via na sociedade, julgava com números e observações duras, os sentimentos abstratos que ainda não entendia.

Com o tempo a prateleira foi ficando previsível e tediosa, ela não mais se importava, não mais olhava verdadeiramente. Por um momento vislumbrou um novo jeito de se interessar por alguém, saindo dos rótulos dos gêneros; abriu a porta, espiou pela fresta mas não entrou; nem isso a interessou. Começou a se questionar o que tinha de tão bom em interessar-se, ela mal se interessava por ela mesma, quem dirá por outro ser? Desistiu de ser como os outros e continuou a ser diferente, destoando de uma massa que tentava a todo momento englobá-la em um universo de relações clichês e sem fundo poético.

Por um tempo a vida passou tranquila, até que quando observava sua prateleira, sentia-se nostálgica por alguns afetos que não desenvolveu; sentiu saudade, imaginou alguns finais felizes e seguiu a reta. Até que esbarrou em um fenômeno que não conhecia muito bem, ficou meio ofuscada pelo desconhecido, mas foi com a razão como luz para isso, não deixou-se abater pelo que não podia ver ou entender. Deixou-se conhecer, interagiu; apaixonou-se, uma parte de si ali se cindiu; agora eram duas, a que vivenciava um amor, e a que observava de longe e narrava a história que via acontecendo, imparcialmente.

A expectadora desconfiou, investigou e achou vestígios de um mundo de mentiras criado em meio ao romance imaturo; não se abateu e nem se precipitou, foi adiante, os olhos abertos e o coração cínico. Por fim, o término previsível se concretizou e nada mais foi feito ou dito; uma folha virada? As marcas continuaram ali, ninguém rasgou-as ou queimou o livro, ele apenas ficou na estante, em um lugar bem alto para que não fosse tentada a atirar-lhe de sua vida.

Vez ou outra dizem que essa menina ainda vaga por ai, com a mesma existência, aparentemente cínica e por dentro alguém que ainda dá a chance de acreditar. Com qual se conversa, nunca se saberá; ela tem desses mistérios. 

Queria poder perguntar a essa moça o que ela acha do amor agora, mas creio que posso imaginar sua resposta; um sorriso doce de menina, de um coração todo remendado com fita adesiva colorida para não traumatizar, e um tom desafiador que ousaria dizer: O amor? O conheci de perto, mas não foi o suficiente, espero por vê-lo; se o avistar, diga que o espero!

1 Comentário

  1. Gostei muito do texto. Estou arrepiado... Na verdade, as relações amorosas de hoje em dia são tão superficiais e passageiras, que nem sei se acredito mais no amor.
    Beijos e bom final de semana!

    http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

 
Desenvolvido por Michelly Melo.